Vocês perguntaram, nós respondemos — 1ª Edição

2017.08.27

Que medos enfrentaram antes de partir?

Por onde andaram até agora? Quanto tempo ficaram em cada zona? O que se segue?

Miguel + Mariana:

É possível viver tanto tempo só das coisas que cabem numa mala? E já deixaram coisas para trás para encher a mala de coisas novas?

Miguel:
Oiçam o que vos digo (ou vá, leiam o que vos escrevo): um dos pontos positivos com lugar assegurado no top desta viagem foi, na minha opinião, atingido antes sequer de termos pousado o pé no aeroporto de Lisboa.
É que é difícil descrever o sentimento de liberdade que adquires quando reduzes os teus bens materiais aos cerca de 10kg que cada um de nós carrega às costas actualmente. (10kg! Já pensaram no que isso é? São dois garrafões de água!.. ou 1.666666 garrafões de água, se forem daqueles grandões que há agora, de 6 litros)
Ok.. a bem da honestidade, quando começámos a viagem trazíamos um peso mais próximo dos 15kg, já que não nos parecia possível passar do conteúdo de uma casa directamente para uma mochila às costas, e portanto passámos ali uns meses no limbo a arrastar bagagem de porão até finalmente nos decidirmos por um par de mochilas Osprey (melhor decisão de sempre.. bem, talvez 2ª melhor decisão de sempre).
Mas, para responder directamente à pergunta (não é o meu forte. Já tinham reparado?)… sim, é muito possível viver meses e meses apenas de uma mala. Não só é possível, como é um exercício em minimalismo e liberdade que recomendo vivamente, mesmo a quem não pretende fazer uma longa viagem.
Até o podem começar agora, se estiverem em casa. Basta olharem à vossa volta e pensarem coisas como “será que eu preciso MESMO deste peluche em forma de alpaca?..” ou “há MESMO necessidade para 7 pares de sapatos?..”. Pensem bem! Isso ao todo são tipo… 14 sapatos!!
Quanto a coisas novas… felizmente as poucas que adoptei pelo caminho não são grandes o suficiente para me obrigar a deixar outras para trás.
Mariana:
Eu parti com uma mala de 65L e o Miguel com uma de 78L. Seria uma viagem longa e não pretendíamos mudar de sítio muito regularmente. Se calhar uma ou duas vezes por mês. Não eram malas muito grandes.
Em pouco tempo, aos meus olhos tornaram-se malas enormes. Os seus 15kg monstruosos.
E ainda que realisticamente não muito grandes, eram grandes demais para alguns transportes públicos ou se pensássemos pedir boleia.
E rapidamente se tornou óbvio que havia o que usávamos muito, ocasionalmente e praticamente nunca.
Fui deixando coisas para trás em todos os sítios onde passámos.
Em Abril, soubemos que um amigo vinha em trabalho a Singapura. Nós estávamos perto, queríamos vê-lo.
Ele foi um porreiro e aceitou levar as nossas malas de volta para Portugal. E assim foi. (Obrigada, Davidi!)
Para substituir as malas comprámos mochilas. Reduzimos os nossos pertences para bem poucos.
Mas ainda neste momento sei que carrego várias coisas que praticamente não uso, e que não traria numa próxima viagem.
Quanto a comprar coisas, a tentação era grande nos primeiros sítios onde passámos. Mas com o tempo decresceu bastante. Novas aquisições são praticamente inexistentes.
Se alguém me pedir opinião sobre que mala trazer para um longa viagem diria uma mochila. Mas se tivesse feito essa escolha quando ainda estava em Portugal, certamente teria escolhido uma mochila maior. Muito maior. É comum ver mochilas de campismo com 55L – 70L. As nossas têm 34L e estão bastante abaixo do tamanho carry-on das companhias aéreas.

Sentiram que a barba, cabelo e pêlos cresceram mais rápido ou mais devagar por terem mudado de país e de PH da água que bebem?

Miguel:

Para ser honesto, não sei até que ponto a água terá tido papel preponderante, mas definitivamente que me sinto um pouco mais peludo desde que nos mudámos para este lado do mundo…

Mariana:
Crescimento.. humm não sei. Não deu tempo para fazer o estudo. Mas notei que tomar banho com:
Água não potável = pele de bebé
Água potável = pele de dinossauro

Desde que começaram a viajar, de que é que têm sentido mais falta?

Miguel:
Pareceria muito mal se respondesse “epá.. as pizzas de atum ultra-congeladas do pingo doce.”..?
Epá.. as pizzas de atum ultra-congeladas do pingo doce.
(desculpem..)
Mariana:
Pessoas e pessoas e pessoas. Família e amigos. Sem ser as pessoas é o gato. O bicho é parvo mas faz tanta falta. Também é onde eu sinto mais culpa de ter partido. (mas ele está a viver muito bem com a sua outra mãe e o upgrade para casa com quintal).
De que sinto falta varia bastante com o lugar onde estamos e depende dos pontos em que é mais diferente de Portugal.
Algo que não esperava e que me tem incomodado bastante é a reciclagem. Em certos sítios é algo inexistente e mesmo quando há tende a ser em menor escala que em Portugal.
Deitar fora coisas que deveriam ser recicladas trouxe-me mais agonia do que alguma vez teria imaginado. Ao ponto que fiquei entusiasmada quando li no wikitravel de Taiwan que o governo proibiu a distribuição gratuita de sacos de plástico em lojas.

Quanto dinheiro já gastaram desde que começaram a viajar?

Quantas línguas novas já aprenderam?

Qual a parte mais difícil de ir..? Família, amigos, a casa, o clima, a comida..?

Miguel + Mariana:
Não há a mais ínfima dúvida de que o mais difícil para ambos foi afrouxar aqueles abraços fortes que trocámos com as nossas respectivas famílias mais próximas. E obviamente que dizer um adeus por tempo indefinido a amigos de infância, da universidade, do trabalho e por aí adiante (gato incluído), fica num próximo 2º lugar nessa lista.
E se pudéssemos ter familiares ou amigos a visitar-nos todos os meses neste lado do mundo, seríamos as pessoas mais felizes do planeta. Mostrar-lhes alguns dos lugares que temos visto e dar-lhes a conhecer algumas das pessoas que temos encontrado dar-nos-ia (e dará!) um prazer imenso.
Abrir uma janela para que quem queira possa espreitar uma das melhores experiências das nossas vidas é um pouco o que tentamos fazer com este site/blog , mas vivenciar estas coisas na 1ª pessoa dar-lhe-ia toda uma outra dimensão.
Por isso… têm planos para os próximos meses…?

Qual a situação mais fixe que viveram neste tempo de viagem e que vos fez pensar que está mesmo a valer a pena?

Miguel:
Não me agrada ser um party pooper, mas é um prazer dizer que é-me impossível apontar apenas uma situação positiva que tenha dado sentido a isto tudo.
É que felizmente nem tenho de pensar muito para me lembrar de uma mão cheia de momentos inesquecíveis que passámos desde que começámos a viajar.
Uma coisa posso dizer com certeza.
Quase todos esses momentos excepcionais foram passados em convívio com pessoas que conhecemos pelo caminho, fossem elas viajantes como nós ou locais que nos receberam nas suas casas ou restaurantes ou cafés ou bancas de rua ou simplesmente no passeio. E penso que também estaria quase 100% certo se dissesse que a maior parte desses melhores momentos não estiveram nada longe de um ou mais pratos, ou taças, ou tigelas ou bánh mìs (baguettes no Vietname) ou rotis ou espetadas ou uma qualquer outra forma de comida espectacular.
Hm.. mas agora que penso, houve aquela vez em que fizemos uma sessão fotográfica com cães..
Essa foi bastante memorável. Falaremos mais dela num post futuro.
Mariana:
São demasiados meses para escolher um só momento para a justificar. Mas, é a primeira vez na minha vida que consigo olhar para os dez meses anteriores e relembrar um momento especifico em cada semana que vivi.
E muito mais do que os momentos são as pessoas. Pessoas com as quais convivemos durante tão pouco tempo, mas as quais me deparo a relembrar tão frequentemente.
Mas o primeiro momento que me vem à cabeça é a Jane a dizer “Mariana, tiraste à lagosta?”

Já descobriram algum lugar novo a que chamem “casa”?

Miguel:
Diria que aquilo que descobrimos foi que, embora tenhamos sempre em Portugal os nossos sítios para onde voltar, agora sabemos que há muitos outros sítios pelo mundo aos quais podemos chamar “casa”, precisando apenas de as encontrar nas circunstâncias certas.
Para pôr a coisa de outra forma, o que aconteceu foi que, na maior parte das largas paragens que temos feito ao longo da viagem, fomos bem recebidos e estivemos confortáveis o suficiente para considerar esses lugares como casa, mesmo que apenas por aquelas duas ou três semanas. Afinal, não foram raras as oportunidades que tivemos de passar bons momentos com os nossos anfitriões, fosse a comer, a conversar, a passear, a brincar com os cães ou a jogar “Risco”.
Viajar devagar e com um maior contacto com as pessoas de cada sítio onde paramos torna possível criar uma relação mais especial que realmente fica. Resta-nos ainda saber como essas relações irão resistir ao tempo, claro, mas pretendemos voltar a encontrar muitas das pessoas que conhecemos até agora, venha isso a acontecer exactamente nos mesmos lugares, em Portugal, ou noutro sítio qualquer do mundo.
Se a questão era mais no sentido de “então, já encontraram um cantinho onde se queiram acomodar por uns tempos valentes?”, a resposta terá que ficar por dar, porque embora já tenha dado para perceber que há vários sítios onde me sentiria bem a passar uns quantos meses, não nos temos ocupado propriamente com projecções a longo-prazo.
Mariana:
Sempre fui muito apegada ao meu espaço. Ao meu quarto, enquanto vivia com os meus pais. E quando passei a viver sozinha, a minha casa. O meu espaço sempre foi importante para mim e algo a que eu dei muita atenção. Esperava que fosse uma das coisas que me fosse fazer mais falta.
Fez quase zero.
Honestamente, pouco pensei sobre este assunto até ter que pensar nesta resposta.
Estou surpreendida que meia dúzia de dias seja o suficiente para pensar num sítio como “casa”. “A minha casa”.
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8 Comments

  1. Sara e Luzia

    Finalmente!
    Eu e a Luzia estamos muito contentes com as nossas futuras leituras nocturnas =^_^=
    Parabéns e força nisso

    Reply
    • HWTW

      É tão bom saber que os frutos do nosso esforço estão ao gosto dos pequenos olhinhos dessa jovem mas já muito experiente (e fiel!) leitora que é a Luzia 😀 muitos beijinhos nessas testas.

      Obrigado! e dar-lhe-emos de força, sim!

      Reply
  2. MJP

    boa cena esta! que deve ter dado trabalho, mas também gozo!
    só falam de despesas! e receitas?
    1 dúvida: contam passar mesmo ao estatuto de “nómadas”??
    desde que vão passando por cá de vez em quando….
    muitos beijinhos e esperamos mais!…

    Reply
    • HWTW

      Obrigado Manel Zé!

      Tem dado uma mescla saudável de trabalho e gozo, sim 😀
      Quanto às receitas, os teus olhos de estatístico experiente habituaram-se a procurar algarismos, mas há coisas difíceis de medir em números. Esperamos tornar esses outros ganhos mais visíveis à medida que a coisa for andando.
      Em relação ao estatuto, apenas o futuro o guarda, mas as passagens de vez em quando ninguém tas tira 🙂

      Beijinhos e venham mais comentários também!

      Reply
  3. Paula Costa

    Meus queridos,

    Gostei muito de ler estes vossos comentários e de saber que posso acompanhar estas vossas viagens e vivências, através deste blog. As viagens são sempre um bom investimento em nós próprios, e ajudam-nos a abrir o coração e a mente ao mundo.

    Que tudo vos corra de acordo com os vossos desejos. Mariana, vêmo-nos no Natal?
    Um grande beij aos dois.

    Reply
    • HWTW

      Olá Paula, muito obrigada e gostamos de saber que gostou de ler ?
      Muitos beijinhos e vemo-nos ainda antes do Natal.

      Reply
  4. Rosinda

    É uma leitura bem agradável. Ainda estou no início, mas já dei algumas gargalhadas. A narração a duas vozes é uma estratégia interessante. Torna o relato mais dinâmico, além de dar a perspetiva masculina e feminina em simultâneo. As imagens também são uma graça.
    Boa viagem e boa escrita!

    Reply
    • HWTW

      Alto lá! “no início”? Mas os comentários estão no final! Como estavas no início, Rosinda? 😀
      Gostamos imenso de saber que está do teu agrado.

      Boas leituras e beijinhos!

      Reply

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