Vocês perguntaram, nós respondemos — 2ª Edição

Por que razão decidiram partir? No fundo, gostava de perceber o que esperavam encontrar nesta viagem que não encontravam cá.

Miguel:

Diria que a razão nasceu de um misto entre o gosto que temos por viajar e o desejo que já ambos tínhamos há muitos anos de ter a experiência de viver fora. No fundo, acho que tiramos gozo de explorar lugares novos e desconhecidos; de observar o modo como pessoas de culturas diferentes fazem as mesmas coisas; de comparar o que vemos de novo com o que já é normal para nós.

Por isso acho que nos chegou naturalmente, a decisão de fazer as malas e partir numa viagem longa e lenta que, por um lado nos permite experienciar o acto de viajar de uma forma diferente daquela a que estamos habituados — mais profunda em todos os aspectos e com bem menos limitações quando comparada com o turismo de duas a três semanas por ano — e, por outro, abre-nos o caminho para explorar outras formas de viver, seja a vida em movimento que adoptámos desde que partimos, sejam os diversos estilos de vida das pessoas que temos conhecido durante a viagem (tanto dos locais como de outros viajantes).

Já agora, para quem me perguntou se eu estava a fugir de alguma coisa, ou se estava farto de Portugal..
nº1 – Nop, não é de todo uma questão de querer sair de uma situação onde estava mal (felizmente, não me podia queixar da minha vida), mas sim de procurar experiências que talvez me levem um pouco mais além.
nº2 – Expliquem-me lá como é que alguém se farta do país do Bacalhau à Brás e da Alheira com Ovo a Cavalo, que eu não estou a perceber..

Mariana:

Para mim esta viagem não vem de algo que me faltava em Portugal. Mas sim, de uma curiosidade gigante de experimentar outros sítios e ter vivências noutras culturas. Embora curtas, as habituais viagens de férias sempre me entusiasmaram, mas não tanto como a ideia de poder levar o meu tempo enquanto mergulho mais fundo numa cultura.

Por isso, a experiência de viver fora de Portugal era algo que me lembro de querer desde muito nova. Sair para um país diferente e viver lá por alguns anos. E a ideia de viajar devagar nasceu da minha incapacidade de escolher um só país.

Porque não o fiz antes? Um mix de preguiça, desorganização e achar que não tinha o que era necessário. Esta combinação preveniu-me de fazer erasmus, estágios ou procurar emprego no estrangeiro.

Porque é que escolheram viajar para essa região do mundo e não outra?

Miguel + Mariana:

Quem nos conhece sabe o quanto gostamos do Japão (quem ainda não ouviu isto vezes suficientes, ponha a mão no ar!), e embora seja estupidamente abrangente dizer que “adoramos toda a Ásia”, temos um claro interesse na cultura do extremo oriente.

A juntar a isso, quando tomámos a decisão, no início de 2016, tínhamos ainda bem fresca (fresquíssima!) na memória a viagem que fizemos em Out/Nov 2015, quando estivemos duas semanas no Vietname, com breves passagens a Siem Reap (Cambodja) e Bangkok.
Sabíamos por isso que era uma região na qual apreciávamos muito a natureza, o clima e a comida, onde nos sentimos sempre em segurança, e onde sabíamos também que o baixo custo de vida em relação a Portugal iria permitir esticar a nossa disponibilidade financeira de uma forma que outros destinos apetecíveis (Coreia do Sul e Japão, por exemplo) não permitiriam.
Outros factores positivos, como a relativa facilidade em obter vistos na região ou a existência de boas infra-estruturas de saúde em vários países do Sudeste Asiático, tornaram a decisão ainda mais fácil.

Como é que as vossas famílias reagiram à decisão?

Miguel:

Well.. digamos apenas que, de um modo geral, não lançaram foguetes..
Bem sei que, com o mercado imobiliário dos dias de hoje, abri ali uma oportunidade de negócio sem paralelo, mas estranhamente não vi expressões de contentamento quando disse que ia vagar o meu quarto.

Noutro grau de seriedade, reagiram com a tristeza expectável de quem vê um filho/irmão/primo/sobrinho que lhes é querido partir sem data para voltar, e também com a preocupação de quem não sabe ao certo o que pode acontecer do outro lado do mundo.

Há muito a dizer sobre a forma como a maioria dos meios de comunicação social leva a que a maior parte de nós ache que do outro lado da fronteira há mais bichos papões a quererem-nos raptar ou magoar do que propriamente locais sorridentes a convidarem-nos a entrar nas suas casas e darem-nos a provar da sua comida (sem estarem secretamente a planear meter-nos no forno).
Mas ainda assim, e mesmo com as distâncias tão encurtadas como estão hoje em dia, quem pode censurar uma mãe que apenas quer mesmo é poder partilhar um peixinho grelhado com o seu filho, aos almoços de sábado? Ou um pai que não quer deixar de levar umas doses valentes do filho ao ping-pong, nos fins-de-semana de Verão (ali sempre uns expressivos 11-1 ou 11-3 muita fortes, com nota artística)? (nota: posso estar a exagerar e talvez a inverter um pouco os papéis).

Mariana:

Irmã: “Também quero!”

Mãe: “Não sei como não saíste do país mais cedo.”

Pai: “Deixas-me tão preocupado..”

Primas Lena e Inês: “Mas estás cá para o Natal, certo?”

Mantêm as mesmas marcas de champô, pasta de dentes e tampões? Ou as que usavam não são globalizadas e optam por produtos locais?

Miguel:

Boa pergunta!… acho.
Uma das coisas de que já tínhamos alguma noção mas que nas primeiras semanas se tornou clara como a água foi esta: pessoas de lados opostos do mundo têm mais ou menos as mesmas necessidades básicas ?  eu sei, é surpreendente! Dito isto, não é tão fácil assim encontrar o champô anti-caspa do Cristiano Ronaldo em supermercados do Vietname (escândalo!), pelo que os padrões de consumo tiveram que sofrer um pequeno ajuste..
Pasta medicinal Couto também ainda não se encontra nas lojas em Bornéu (ultraje!), pelo que nos tem valido a Colgate-Palmolive, esse gigante omnipresente a nível mundial.

Mariana:

A regra é: havendo escolha, o mais barato que pareça de confiança (a confiança é inferida através das cores, tipografia e elementos gráficos presentes na embalagem, porque normalmente não fazemos grande ideia do que está lá escrito).

Só havendo uma escolha, é essa.

Já alguma coisa vos fez ter vontade de voltar?

Miguel:

Confesso que, por vezes, no processo de tentar matar saudades através da troca de mensagens, fotografias ou vídeos (ou em vídeo-chamadas), o tiro sai um bocado pela culatra e acabo a desejar que pudesse estar de volta a casa, pelo menos por uns instantes.
Esse efeito contrário acontece especialmente quando envolve os mais recentes membros (e “membras”) da minha família. É que grande parte da minha geração só agora começou a espalhar a sua semente do amor, de maneira que neste momento há toda uma série de novas mini-pessoas a desabrochar na sua infância x) (Novas e ESPECTACULARES mini-pessoas, devo acrescentar.)

Em linha com isso, o Natal passado foi provavelmente a altura em que mais desejei poder enviar-me a mim próprio colado a um postal (faço uma excelente imitação de selo). Aliás, é por essas e por outras que estaremos de volta a Portugal em breve, bem a tempo do próximo Natal 🙂
Mariana:

Há momentos em que tenho pena de não estar presente, mas acho que nada em particular me fez ter desejado estar de volta.

Ainda assim, decidimos que não queríamos passar dois Natais seguidos longe de Portugal. Por isso voltamos em Novembro para matar saudades.

Além disso, sinto imensa culpa por ter deixado o meu gato. Ele possivelmente (provavelmente) acredita que eu o abandonei. E parte-me o coração sempre que penso nele.

Como tem sido viajar em casal?

Miguel:

Eu até diria que tem sido surpreendentemente fácil, mas a verdade é que acho que isto tem pouco de surpreendente.
Eu explico: desde que estamos juntos (já lá vão.. 6, 7, 8… sim, 8 anos. Espera lá… OITO ANOS!? MARIANA, O QUE É QUE ME TENS ANDADO A PÔR NA COMIDA ESTE TEMPO TODO?!), e tendo passado muito desse tempo a viver na mesma casa, acho que se pode dizer que temos um registo bastante positivo como casal, em termos de tensões e ciumeiras e essas cenas que os casais costumam ter.
E acho que isso acontece porque temos uma forma.. diria tranquila e equilibrada de gerirmos o que é o tempo e espaço de cada um. Ah, e acho que também se pode dizer que temos os dois bastante paciência, essa tão preciosa virtude (não estou a ser nem uma bequinha sarcástico — patience rocks!! (..pronto, e agora tenho que ir ouvir a “Patience” dos Guns..))

Ora, pelos vistos parece que as novas e diferentes circunstâncias de estarmos a viajar há mais de um ano e a mudar de poiso todas as duas ou três semanas (e a aturar-nos um ao outro quase 24/7) não tiveram um enorme impacto nessa dinâmica. Isto faz com que, pelo menos até agora, a coisa ande a correr bastante como corria quando vivíamos em Lisboa. Ou seja, sem stresses de maior.

Claro, também ajuda o facto de termos interesses parecidos (ou pelo menos alargados o suficiente para aturarmos um qualquer interesse mais fora que o outro tenha *cof* *cof* fetiches por lapiseiras *cof*).
Isto inclui as nossas expectativas conjuntas para o que queremos em cada momento da viagem e também o tipo de experiências e lugares que procuramos ter e visitar.

Acho que aquilo que é importante numa relação em casa também é importante enquanto se viaja. E respeitar o espaço, manter a flexibilidade e saber fazer cedências é do mais importante que há, na minha opinião.
Além de ter “a little patience”, claro ?

Mariana:

Honestamente, mais fácil do que esperava. Vivemos juntos há vários anos e já tínhamos viajado juntos várias vezes. Mas esta viagem eleva a nossa convivência a outro nível. Há semanas em que literalmente passamos 24h por dia, 7 dias por semana juntos.

Tem sido tão fácil que não me está a ocorrer nada que ache sequer semi-interessante para dizer -.-‘
Discussões próximo de zero. Amuos, ocasionais. Mau humor, menos que pouco.

Qual o momento mais complicado que viveram durante a viagem?

Miguel:
Epá, assim momentos mesmo complicados… Felizmente posso dizer que, após quase um ano em viagem com dezenas de paragens por mais de 5 países, de repente não me ocorre nenhuma crise em particular que tenhamos vivido.

Quer dizer, houve uma vez na Tailândia em que tínhamos apanhado um autocarro de Phuket para Surat Thani, e demos conta umas horas mais tarde de que durante essa viagem alguém teria forçado e aberto o fecho da minha mala…
(provavelmente um funcionário do próprio autocarro, utilizando um alçapão para aceder ao compartimento da bagagem. Ya…) Mas felizmente nunca dei por nada em falta, por isso valeu pelo susto e pelos 10 ringgits malaios (2€) que paguei a um velhote 5 estrelas em Georgetown (Malásia) para me arranjar o fecho.

E claro que, nas maiores cidades do Vietname, só o acto de nos pormos em cima de uma mota (à pendura) e navegar aqueles rios de milhares e milhares de outras motas era motivo para stress mas felizmente não aconteceu nada de mais.
Mas pensar que amigos nossos vietnamitas fazem quilometros e quilometros todos os dias…

Mariana:

Os primeiros meses foram muito instáveis para mim. Antes de partir, não tinha uma ideia muito clara sobre como seria a nossa “nova” vida.
Numa viagem com um fim definido sabemos que temos que aproveitar o máximo possível. Mas neste caso eu não via a situação como uma viagem mas como uma nova vida.
O que me levou a uma obsessiva comparação entre a vida que eu tinha deixado para trás e a minha nova realidade.
Eu gostava da minha vida em Lisboa. De onde vivia, do meu trabalho e de como e com quem passava o meu tempo. Do meu gato.
Nenhuma dessas coisas era algo de que eu quisesse abdicar. Fugir de.
Comparava todos os momentos. O novo sítio onde vivia. A comida. Todas as mais pequenas interações.
Uma procura constante de uma confirmação de que valeu a pena.
As minhas emoções estavam numa montanha russa. De muito entusiasmada a semi-deprimida várias vezes por dia. Lágrima à beira dos olhos mais vezes do que gostaria de admitir e o mais chato é que isto demorou quase 2 meses a passar. Mas passou! 🙂

Quando voltam para nós?? Nesta altura já pensam nisso ou está a ser tão bom que nem está nos vossos planos?

Miguel:

Está nos planos, pois! Aliás, está tão nos planos que até já está no papel também (papel cibernético, mas vocês percebem o que eu quero dizer), na forma de bilhetes de avião para o início de Novembro (com uma escala para congelar um bocadinho, em Oslo, e outra para congelar um bocadinho menos, em Bruxelas — vocês têm noção das roupas que nós (não) levamos na mala, não têm?).

Por mais que estejamos a adorar viajar, e por mais que queiramos ver isto a durar o máximo de tempo possível, era difícil passar agora assim “de repente” dois Natais longe de casa e dos nossos seres vivos mais queridos (além de outras coisas mais inertes também muito queridas, em forma de comida deliciosa tipo coscorões ou fios d’ovos ou croquetes de Natal — ..como assim, “croquetes de Natal não é uma cena”?).

Vamos ver o que se segue no ano que vem…  mas, para já, estamos contentes com aquilo que vemos à nossa frente.

Mariana:
Voltamos no mês que vem e ficamos para o Natal. Não prometemos é que fiquemos por muito tempo. Ainda não temos planos concretos, mas pensamos talvez rumar a Este (no caso do Miguel, Sul), em Janeiro/Fevereiro.
(aceitamos companheiros para uma road trip)
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2 Comments

  1. MJP

    na 2ª linha é mesmo “transmorfar-se”?
    “Viajar em casal” 2º parágrafo da Mariana, falta qq coisa!!..
    não sei se ainda é oportuno? mas…
    quanto a tudo, adorei!

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    • HWTW

      oops.. faltou ali qualquer coisinha faltou.. obrigado!
      e na 2ª linha era mesmo “transmorfar!”, como referência aos clássicos Power Rangers dobrados para português:

      https://www.youtube.com/watch?v=Tgg1PLfHkf0

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